segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Lembrei-me de ti na esquina do jacarandá
da manhã em que te sumias para dentro da memória
e fomos fingindo
que nada estava a acontecer.
Na tua mão um livro em derradeiro afago.
Uma breve luz no olhar.
Falaste de Caravaggio
como falavas dos Lusitanos
descascando batatas na cozinha
ou da perspectiva
no café da Praça da Batalha.

E eu debruçada na tua mesa vendo-te desenhar.

Pelo jardim que de repente me invadiu
correram os meus passos de criança,
olhos feitos água do frio matinal,
agora água de outro frio.
No baloiço onde me crucificaste numa foto
os braços abertos esperavam, esperaram
esperam ainda...
Na memória
interceptaram-se navios e ausências
o reencontro tardio dos afectos.

E a automotora corria a escuridão da noite

Sobrevoei esta cidade nem tua nem minha
e outras
por dentro de uma espessura sem palavras.
Revi horas enxertadas num tempo negado
a construirem imaginários de branco e luz.

E a tua mão sobre a minha desenhava labirintos

Diz-me
onde de enredou a palavra que não dissemos
e porque me esqueci da certeza do teu colo.

Algo sobrava sempre entre nós numa dor aflita.

E era sempre de manhã
e as mãos no baloiço... os braços esperando...

E eu pousava três rosas sobre as tuas mãos

domingo, 16 de novembro de 2008

Fluía no seu passo o sul
os odores
a luz que expande o brilho do silêncio
o desejo absoluto
pela procura insistente de ninguém.
Pausava a palavra no tempo de pensar
onde o mundo se faz habitável pela sua negação.
Fluía no seu olhar
a nostalgia de um tempo que se aguarda.
O corpo aquietado, caminhando ruas de silêncio,
nascia em cada mancha de luz sobre a parede.


Olhamos brevemente o sítio onde a ternura nasce
sem cuidar
que o resto do mundo nunca se ausentara.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O caminho da praia era uma lonjura inquieta.
Avenida abaixo o eléctrico gingão picava a impaciência
e o caminho ia encurtando devagar.
Cada paragem era um desencanto mudo
uma paciência mordida pela lentidão de quem saía.
- Não vão para a praia, estes senhores?
...
Restavam as árvores que fugiam atordoando-me o olhar,
de súbito rebrilhando à vista do pombal cinzento
ao ruído deslizante do freio junto à casa cor-de-rosa.
E o desequilíbrio na curva
- Senta-te. Olha o braço fora da janela!
Desaguava-se num redondo imenso antes do azul!
De repente, tudo me caía em cima envolto em maresia:
O castelo, o mar, a areia, os toldos às riscas, a bandeira
- Sempre vermelha!
e o frescor num convite...
- Ainda não,
dizia a minha mãe.
Mas o mundo era já outro:
o odor das conservas, do cordame no cais,
a cor dos navios acostados,
as gaivotas na areia lisa da manhã,
o baque dos sapatos batendo na areia
a toalha indomável,
o chapéu rolando com o vento.
Saltitava num e noutro pé ensaiando uma corrida eminente
- Já posso ir?
- Só mais meia hora.
Meia hora!
Havia sempre a eternidade entre mim e o mar!

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Às vezes percorria nos teus olhos
manhãs de orvalho
a cor no tempo da descoberta
a transparência das formas
sempre lá
esperando pelo olhar sem mágoa.
Às vezes, tinha a ilusão
que vieras em madrugadas de riso solto
das minhas janelas à espera
do anoitecer.
Às vezes pressentia-te a meu lado errando
pelas terras do sol eterno
do jasmim bordejando muros
das vozes ao longe
quando o silêncio nos devolve o mundo.

E cada vez mais
sinto que nada há a fazer
senão escutar.

domingo, 21 de setembro de 2008


O INÍCIO

Cinco da manhã.
O meu gato - o verdadeiro Garfield - está inquieto. Não costuma ver-me acordada a esta hora.
Mas há sempre uma excepção para tudo.
O blogue nasceu com a noite, elemento por excelência deste magnífico animal.