segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O caminho da praia era uma lonjura inquieta.
Avenida abaixo o eléctrico gingão picava a impaciência
e o caminho ia encurtando devagar.
Cada paragem era um desencanto mudo
uma paciência mordida pela lentidão de quem saía.
- Não vão para a praia, estes senhores?
...
Restavam as árvores que fugiam atordoando-me o olhar,
de súbito rebrilhando à vista do pombal cinzento
ao ruído deslizante do freio junto à casa cor-de-rosa.
E o desequilíbrio na curva
- Senta-te. Olha o braço fora da janela!
Desaguava-se num redondo imenso antes do azul!
De repente, tudo me caía em cima envolto em maresia:
O castelo, o mar, a areia, os toldos às riscas, a bandeira
- Sempre vermelha!
e o frescor num convite...
- Ainda não,
dizia a minha mãe.
Mas o mundo era já outro:
o odor das conservas, do cordame no cais,
a cor dos navios acostados,
as gaivotas na areia lisa da manhã,
o baque dos sapatos batendo na areia
a toalha indomável,
o chapéu rolando com o vento.
Saltitava num e noutro pé ensaiando uma corrida eminente
- Já posso ir?
- Só mais meia hora.
Meia hora!
Havia sempre a eternidade entre mim e o mar!

3 comentários:

ana g disse...

Não sei o que é ir para a praia no Porto, enquanto pequena. Mas,o que vou ouvindo em muito se assemelha, só falta o berro da mãe:
-Senta-te. Tira-me esse braço para dentro.
Enquanto lhe enfia um bofardo no puto, que fica cabisbaixo, só por momentos, olhando por cima dos olhos, os passageiros.

Maria Manuel disse...

Por favor presenteia-nos com mais pedacinhos da tua poesia, faz-nos bem.

Ricardo Freitas disse...

Pudessemos todos recordar-nos assim da infância. Todos e cada um... E saber exprimi-la de forma tão sublime, onde cada palavra é adequada: nada tira, nada acrescenta.