quarta-feira, 28 de julho de 2010

As Cidades Invisíveis




POLO: - ...Talvez este jardim só exponha os seus terraços para o lago da nossa mente...
KUBLAI: - ...E por mais longe que nos levem as nossas atribuladas empresas de guerreiros e de mercadores, ambos guardamos dentro de nós esta sombra silenciosa, esta conversa pausada, esta noite sempre igual.
POLO: - A menos que se dê a hipótese oposta: de os que se afadigam nos acampamentos e nos portos só existirem porque pensamos neles nós os dois, encerrados entre estas sebes de bambu, imóveis desde sempre.
KUBLAI: - De que não existam a fadiga, os berros, as pragas, o fedor, mas só esta planta de azálea.
POLO: - E de que os carregadores, os calceteiros, os varredores, as cozinheiras que limpam as vísceras das galinhas, as lavadeiras ajoelhadas sobre a pedra, as mães de família que mexem o arroz aleitando os recem-nascidos, só existam porque nós pensamos neles.
KUBLAI: - Para dizer a verdade, eu nunca penso neles.
POLO: - Então não existem.
KUBLAI: - Essa conjectura não me parece que nos convenha. Sem eles nunca poderíamos ficar a balançar encasulados nas nossas camas de rede.
POLO: - Então a hipótese é de excluir. Portanto será verdadeira a outra: de que existam eles e não nós.
KUBLAI: - Assim demonstrámos que se nós existíssemos, não existiríamos.
POLO: - De facto, aqui estamos.

Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

Sem comentários: